Quem está puxando esta cadeira
Meu nome é Tharso Vieira. Nos últimos vinte anos, trabalhei na interseção de publicidade, produto digital e tecnologia. Comecei fazendo as duas coisas ao mesmo tempo (comunicação e UX) e nunca parei: campanhas para Coca-Cola, Santander, Microsoft, Bradesco; produtos digitais para Casas Bahia, GOL, Tok&Stok, Avon, Bosch. Desde 2014, projetos envolvendo IA (incluindo a BIA, inteligência artificial do Bradesco, em 2015). De 2022 pra cá, IA é o que faço em tempo integral.
Cheguei à NR-01 pelo caminho inverso do esperado. Não parti da norma. Parti do problema.
Vi colegas adoecendo em câmera lenta ao longo da carreira. Não o colapso dramático que vira manchete, mas o encolhimento crônico: a pessoa que vai cedendo autonomia, aceitando sobrecarga como normalidade, até que alguém a declara "pouco produtiva" e o ciclo se fecha com um rótulo de incompetência. Vi gestores tratando isso como filtro natural ("aqui só fica quem aguenta"). E vi, em mim mesmo, algo mais sutil: o custo cognitivo invisível de manter a própria vida organizada.
Minha mente é caótica por natureza. Compensar isso virou quase uma segunda profissão. Bullet Journal, GTD, Kanban, Evernote, Notion, Obsidian, Basecamp (poderia listar mais trinta). Cada ferramenta funcionou por um tempo. Todas cobraram uma contrapartida: o trabalho de gerenciar o trabalho, que ninguém computa como trabalho.
No início de 2025, construí o Prumo: um sistema pessoal de organização baseado em IA, projetado com uma premissa que parece óbvia mas não é (que o sistema deve se adaptar à pessoa, e não o contrário). Baixa manutenção, sem lock-in, capaz de aprender com correções, propositivo sem ser invasivo. Um sistema que entende o usuário como pessoa inteira e que funciona como parceiro de reflexão, não como lista de tarefas glorificada.
Só depois de construir o Prumo é que descobri a NR-01. E os pontos se conectaram: o custo cognitivo que eu tentava resolver para mim mesmo era o mesmo tipo de problema que a norma agora obriga empresas a mapear. A sobrecarga que eu vi adoecer colegas tinha nome técnico, evidência epidemiológica e, a partir de maio de 2026, consequência regulatória.
A diferença entre o que eu trago pra essa mesa e o que já está nela é de lente. Médicos diagnosticam. Advogados mapeiam risco. Consultorias de SST fazem inventário. Plataformas escalam acesso a terapia. Tudo necessário. Mas quem projeta a intervenção? Quem redesenha o processo de trabalho que gera o dano? Quem faz a ponte entre o diagnóstico e a mudança?
Em agências e empresas de tecnologia, esse era exatamente o meu trabalho: sentar entre mundos que não se falam, entender o problema de cada um, e projetar algo que funcione para quem vai usar. A disciplina que aplico aqui (ergonomia cognitiva) existe há quarenta anos. Só não foi convidada para esta mesa.
Este site é o convite.