O custo de não projetar

Cada real perdido é sintoma de uma decisão de design que ninguém tomou

Tharso Vieira
Maio de 2026 · 7 min

A NR-01 não cria o custo. Ela revela um custo que a empresa já paga de forma desordenada. Cada real perdido com adoecimento mental no trabalho é sintoma de uma decisão de design que ninguém tomou. Não uma decisão difícil ou inacessível. Uma decisão que simplesmente não existe no vocabulário de quem administra o trabalho.

Para entender o que significa “não projetar,” vale olhar para o que as empresas estão fazendo em resposta à norma. Não nos piores casos. Nos medianos, bem-intencionados, com orçamento e boa-fé.

O requisito era existir

Treinamentos obrigatórios sobre saúde mental. Genéricos, desinteressantes, com dicas de bem-estar que soam como uma avó mandando o neto vestir casaco (só que sem o carinho da avó). Assista ao vídeo, responda ao quiz, ganhe o certificado. A empresa cumpriu a parte dela. O funcionário ganhou quarenta minutos a menos no dia, que vai precisar compensar pra entregar o trabalho no prazo.

Sessões de “acolhimento” coletivo em que alguém pergunta ao grupo que tipo de problemas as pessoas enfrentam no trabalho. Na frente dos colegas. Às vezes, na frente do próprio gestor. O formato pressupõe confiança que não existe e, ao falhar, confirma a desconfiança.

Canais de denúncia monitorados pela liderança. O formulário de feedback cujo destinatário é o objeto da reclamação. Um designer de produto jamais aprovaria essa arquitetura. Mas alguém aprovou, porque o requisito não era funcionar. Era existir.

E por trás de tudo, a premissa de que o profissional é uma unidade isolada. O programa trata “o colaborador,” não a pessoa que acordou às 5h pra levar o filho na escola, que está preocupada com a mãe doente, que não dormiu porque a filha de dois anos teve febre a noite inteira. Toda empresa sabe que seus clientes são pessoas inteiras (o marketing gasta fortunas mapeando jornadas e contextos). Quando o mesmo raciocínio deveria valer pro trabalhador, a pessoa se subdivide: aqui dentro você é “recurso humano,” lá fora o problema é seu.

A erosão que ninguém mede

O custo financeiro é conhecido: R$ 3,5 bilhões por ano em benefícios previdenciários por transtornos mentais, indenizações que chegam a R$ 250 mil por caso. Mas existe outro custo, mais corrosivo, que nenhuma planilha captura.

As pessoas percebem quando estão sendo negligenciadas. Todo mundo sabe que o treinamento obrigatório é pro forma. E quando percebem, acontecem duas coisas. A pessoa que não aguenta a pressão para de produzir. É visível, mensurável, e a organização reage como sabe: gestão de performance, feedback negativo, desligamento. O problema some do dashboard. O custo não. A pessoa que aguenta é pior: entrega, performa, aparece bem nos indicadores. O sistema “funciona.” Até o dia em que não funciona mais, e aí vai embora ela e todo o conhecimento tácito que levou anos construindo. Nenhum onboarding repõe isso.

Enquanto isso, os resultados do negócio são medidos com obsessão (revenue, churn, NPS, margem, crescimento trimestral). E o resultado do programa de bem-estar? Taxa de adesão. Número de sessões. Satisfação auto-relatada. Métricas de campanha, não de saúde.

Por que a empresa que mede tudo não mede se a intervenção mudou alguma coisa no absenteísmo do setor X, na rotatividade da equipe Y, na carga cognitiva do processo Z? Porque ninguém projetou o programa pra isso. E não por cinismo: a pessoa de RH que contratou a plataforma não tinha tempo, mandato ou repertório pra desenhar uma intervenção integrada ao fluxo de trabalho. Fez o que podia. O problema não é a pessoa. É a ausência de uma disciplina que deveria estar na sala.

Extração ou design

“Aumentar a produtividade” pode significar trabalhar mais horas (extração) ou tornar processos mais eficientes para entregar mais trabalhando menos (design). As duas coisas são opostas. A maioria dos programas de bem-estar opera sem explicitar qual das duas está perseguindo.

Projetar a intervenção significaria medir resultado em vez de adesão: a taxa de erro diminuiu? O absenteísmo caiu? O tempo médio de atendimento mudou sem que a satisfação do cliente piorasse? E significaria fechar o loop: se as entrevistas de desligamento repetem “pressão” e “falta de autonomia,” essa informação precisa chegar a quem projeta os processos de trabalho. Na maioria das empresas, esse dado morre num relatório que ninguém com poder de redesenho lê.

O argumento do fast-food

Sob alguns pontos de vista, pode valer a pena fazer algo mal feito se for muito mais barato ou demandar muito menos energia. É a lógica do fast-food: você troca qualidade por conveniência e a troca é racional.

Aqui, não é o caso. Mitigar o problema fazendo mal feito vai demandar a mesma energia e custar a mesma coisa. Provavelmente mais, se considerarmos a rotatividade que não para, o conhecimento que evapora, a credibilidade interna que se corrói cada vez que alguém é obrigado a assistir mais um treinamento que todo mundo sabe que não serve pra nada. É a pior versão possível de um trade-off: você paga o preço inteiro e leva o produto ruim.

A NR-01 vai exigir que toda empresa faça alguma coisa. O custo de fazer mal feito e o custo de fazer direito são o mesmo. O resultado, não. Por que não projetar?